Tempo, tempo, mano velho

Mais um ano que se encerra… E não é um ano qualquer, mas o ano que fecha a primeira década do século 21. A sensação de atravessar ciclos tão demarcados, muitas vezes, não é tão boa. Por exemplo, se você nasceu no finalzinho dos anos 70; foi criança nos anos 80; adolescente durante os 90; viveu a juventude na primeira década dos anos 2000 e agora inicia a segunda já trintão; então poderá fazer o seguinte balanço: você atravessou quase 4 décadas, viveu a passagem de um século e – o pior – viveu a passagem de um milênio… Bateu um “Matusalém feelings” agora?

Mas mesmo assim, você dirá que os anos passaram como um flash. É inegável que a sensação geral é que o tempo está passando muito mais rápido agora, do que há anos atrás. “O meu dia não rende nada” é uma frase que ouvimos com frequência. Muitos podem atribuir a esse fenômeno o turbilhão de informações, sensações e acontecimentos – que nos bombardeiam a todo o instante e quase em tempo real – e que chegam de tudo quanto é lado: internet e ferramentas de redes sociais, celulares, TV e mídia em geral. Além disso, há também a vida frenética das grandes cidades, que incluem os engarrafamentos do trânsito, os compromissos profissionais (que nos tomam o dia todo) e tantas outras coisas que nos propiciam a sensação de escoamento de tempo. Sintomas dos anos mais recentes? Em parte sim, mas não podemos nos esquecer que essa história é um pouco mais antiga.

Tudo começou na Revolução Industrial, quando a ideia de compartimentação das etapas do trabalho ditou como seriam os trabalhadores dos próximos séculos. Produtos em série e em larga escala demandavam uma mão de obra que funcionasse como um relógio. Sem brechas para sentir emoções, descansar ou refletir sobre sua condição, o trabalhador/operário deveria apenas cumprir o papel que lhe cabia na grande engrenagem do modo de produção industrial. O importante era produzir em quantidade e quanto maior o tempo dedicado a esse processo, mais valor teria o resultado.

A imagem que ilustra este post vem de um dos maiores clássicos do cinema mundial, o filme Metrópolis, do diretor alemão Fritz Lang, lançado em 1927. O filme colocava em discussão a opressão do trabalhador pela máquina e por quem detinha o poderio dela, num hipotético mundo futurista – mas que na época já se mostrava bem real. Dentre as diversas cenas antológicas, há uma que acho impressionante. O momento em que o dia de trabalho se inicia na fábrica, e as hordas de operários cinzentos rumam em fila, no ritmo cadenciado das máquinas, em direção aos seus postos. Nenhum deles tem a sua face revelada; são todos iguais, com seus uniformes indistintos, automatizados e sem vontade própria. Detalhe: os operários trabalhavam literalmente nos subterrâneos, enquanto os ricos povoavam as espaçosas, iluminadas e ajardinadas superfícies do mundo do futuro. No Youtube você encontra exatamente esse trecho:

Mas por que mesmo eu estou falando de tudo isso? Bem, em pleno século 21 nós ainda nos parecemos com o homem que tenta conter o tempo a todo o custo. São tantas coisas que nos dividem e achatam nossa vida. Queremos dar conta de tudo, mas nem sempre conseguimos. Não é à toa que tem se falado tanto a respeito de qualidade de vida, de descanso físico e mental, de valorização de outras instâncias além do trabalho, entre outros assuntos afins. Cem anos depois, estamos descobrindo que ninguém é apenas uma peça a ser encaixada em um padrão; mas um ser íntegro, com vivências, necessidades e pensamentos diferentes entre si.

Embora a importância do bem-estar esteja na crista da onda, nos deparamos frequentemente com dicas e orientações sobre como organizar e otimizar melhor o tempo. Para falar a verdade, são “jeitos e gambiarras” para que nos adaptemos ao ritmo dos nossos dias e as nossas tarefas entrem no limite das 24h, tal como um closet de roupas dentro de uma frasqueira. Quando é que iremos abandonar os vícios da sociedade industrial?

Muito se fala em sociedade do conhecimento, trabalhar com inovação e criatividade, mas poucas empresas e instituições (incluindo as escolas) ousam reformular o que há muito está estabelecido. Por exemplo: por que devemos todos trabalhar no mesmo local e no mesmo horário? Por que era assim na indústria? As tecnologias de comunicação e informação estão se desenvolvendo num nível surpreendente e por que não aproveitá-las, trabalhando remotamente? Assim, haveria menos trânsito, poluição e stress nas cidades.

Lembrando um trecho daquela velhíssima canção do Pato Fu: “Tempo, tempo, tempo mano velho/ Vai, vai, vai, vai, vai, vai / Tempo amigo, seja legal”. Não. Não dá para pedir que ele seja legal, porque ele vai seguir o seu rumo e não estará nem aí para os apelos daqueles que vão se perdendo no seu rastro. Isso se formos passivos ao tempo cronológico. Porém, o tempo vivido, esse sim, somos nós os construtores.

Todo esse blá-blá-blá sobre o tempo também serviu para pensar comigo mesma: o que me fez abandonar meu blog durante seis meses, mesmo que eu desejasse muito me dedicar a ele? Falta de tempo? Bom, como resolução para 2011, vou me esforçar para usar essa desculpa cada vez menos e me dedicar a coisas que tornariam a vida mais interessante. 😉

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8 respostas em “Tempo, tempo, mano velho

  1. Sempre dá tempo pra buscar coisas interessantes, não é? Acho que precisamos nos lembrar mais disso.
    Adorei o texto.
    BeijO, San 😉

  2. Ai meu Deus, se vc não assistiu, falava exatamente deste finalzinho do texto, vamos aproveitar o tempo como deve ser, ou seja, o agora, o momento. O tempo é a coisa mais preciosa para os italianinhos de lá.

  3. Oi Sandra, legal a sua iniciativa desse blog.

    Sempre pensei em fazer um também, mas enquanto me sobra preguiça, o que me falta é justamente o Tempo! 🙂

    Gostei muito do seu texto, nasci em 1980, e tenho essa sensação aí mesmo!
    Como se já não bastasse a dor nas costas!

    Ainda mais agora que virei papai! 🙂

    Você escreve muito bem. O blog tem tudo pra dar certo!

    Grande abraço,
    Manú

    • Oi, Manú!
      Que bom te rever, mesmo virtualmente! Pô, cara, você já é pai!? Que bacana, parabéns!!! Falando nele, o tempo traz surpresas inesperadas e agradáveis, não é mesmo?
      E que bom que você gostou do blog! Olha, sempre gostei de escrever e garanto que o blog é quase uma experiência terapêutica. Recomendo, viu? Bjos

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