Freiras, cantoras e psicodélicas

Quando você ouve falar em música religiosa, logo pensa em música sacra ou em cânticos devocionais, acompanhados por arranjos tradicionais? Ou se quisermos algo mais “moderninho”, poderíamos pensar nos padres cantores pop ou nas diversas vertentes do gospel/evangélico, certo? E a cena musical da década de 1970, nos remete a que? Bom, muita coisa estava acontecendo naquela época (rock progressivo, glam rock, etc), mas uma forte marca foi a psicodelia, que vinha desde os anos 60, e que era marcada pelo som “viajandão”, distorcido e movido a estados de alteração da percepção (“Lucy in the Sky with Diamonds” e afins…). Além disso, a disco music estourava nas paradas, com toda a sua parafernália eletrônica. E se misturássemos essas tendências todas? Isso poderia acontecer? Não só poderia, como de fato ocorreu! E durante os anos 70 mesmo!

Ao ouvir uma edição mais antiga do programa Pop Link da Rádio Uol, especializada nas novidades e raridades do pop e do rock (tem muita coisa indie, o que adoro), me deparei com uma música de sonoridade bem etérea, estranha e com um quê do som independente atual; parecido com o estilo do Dead Can Dance, cuja música tem influências do pós-punk, world music, música medieval e renascentista e “ethereal wave” (seja lá o que isso for). Bom, a coisa ficou mais bizarra (e interessante) quando eu descobri quem cantava a tal canção: uma dupla de freiras australianas chamada Sister Irene O’Connor.

A música em questão é “Fire of God’s Love” do álbum “Fire of God’s Love/Songs to Ignite The Spirit” (Fogo do Amor de Deus/ Canções para Acender o Espírito), lançado em 1976 pelo selo Alba House. Vozes etéreas ecoam – quase que num mantra eletrônico – em meio a todo o tipo de experimentação que a época permitia, com baterias eletrônicas e sintetizadores. “Fire…” você ouve no Youtube, na entrada deste post. Aliás, essa é a capa do LP, com toda a estranheza possível que os anos 70 podiam produzir em termos visuais. Outras duas músicas da dupla (“Mass-Emmanuel” e “Keshukoran”) podem ser ouvidas no blog WFMU’s Beware of the Blog.

Perto do final dos anos 70, elementos da psicodelia já estavam bem incorporados à música, à moda e à estética da época. Mas ainda é curioso que religiosas católicas tenham adotado essas influências também. Apesar de encontrarmos na Dona Wikipédia definições que dizem que “a música psicodélica se refere a um tipo de produção musical intimista”, e que “a experiência psicodélica é caracterizada pela percepção de aspectos da mente anteriormente desconhecidos, inusitados ou pela exuberância criativa livre de obstáculos“. Guardadas as devidas diferenças, não parece tão diferente da experiência espiritual ou religiosa. Lembrando uma frase do artista William Blake (que deu origem ao nome da banda The Doors):

“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria como realmente é: infinito”.

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