E por falar em DIY: Artesanato de guerrilha

Aproveitando a deixa do post retrasado sobre o que fazer com rolos de papel higiênico, resolvi falar um pouco mais sobre DIY, mais precisamente sobre o seu conceito e como alguns grupos mais politizados têm feito uso dele.

O termo DIY, abreviação de “Do It Yourself” (do inglês “Faça Você Mesmo”), nasceu em meados da década de 1970 a partir da cena underground e do punk rock nos EUA e na Inglaterra. Nesse momento, alguns jovens – cansados da indústria cultural e de toda a parafernália comercial que circundava a música da época – resolveram arregaçar as mangas e fazer sua própria música (mesmo que soubessem tocar apenas três acordes), seus próprios discos, seus shows, seus filmes caseiros e seus fanzines. A base do pensamento DIY era o espírito empreendedor e anarquista. Atualmente, o princípio do Faça Você Mesmo está presente em diversos campos como, por exemplo, o da tecnologia onde as pessoas podem produzir conteúdo e comunicar suas ideias – sem precisar da mídia dita oficial – através de blogs, ferramentas de redes sociais, etc.

Parece que no auge da alta tecnologia, da globalização e do ultra consumismo tem havido uma certa nostalgia de um tempo em que se podia dominar e assistir a todas as fases da manufatura de um produto, garantindo inclusive sua qualidade e personalidade (como no caso do alfaiate e da costureira); e em que as relações de comércio e de serviço eram bem próximas, quase que familiares (como a da mercearia da esquina). É interessante que esse resgate do artesanal e do antigo tem vindo de uma geração mais nova e não exatamente dos mais velhos. No livro “Microtendências: as pequenas forças por trás das grandes mudanças de amanhã”, o autor Mark J. Penn identifica alguns padrões de comportamento, que ele chama de microtendências, de alguns grupos que tenderão a determinar as transformações da sociedade atual. Em meio a diversos grupos, ele cita as jovens tricoteiras: meninas que cada vez mais mostram interesse em aprender as técnicas de tricô, adoradas pelas avós e abominadas por muitas mães feministas (veja só como o mundo dá voltas…). Outras técnicas têm sido disseminadas ou reabilitadas, produzindo coisas que parecem antigas, mas com roupagens consideradas jovens como, por exemplo, bonecos dos personagens de Star Wars em crochê, almofadas de feltro em formato de Pac Man, etc.

O fato é que o produto artesanal tem sido cada vez mais valorizado, e transformado em tendência cool, por trazer elementos considerados preciosos para os nossos dias: é ecologicamente correto (tende a poluir menos que o industrializado e o produzido em larga escala); movimenta uma economia alternativa à das grandes corporações (e contra o uso de mão-de-obra barata); valoriza o manual, o criativo e o autêntico, ante ao consumismo exacerbado e ao descartável; além de possibilitar a cada um de nós a autonomia para podermos fazer nosso próprio produto. Aliás, muitos grupos (principalmente nos EUA e na Europa) têm encarado o trabalho artesanal como uma bandeira anticapitalista, aliando postura política e artística.


Road movie craft

Interessada no cenário craft de seu país, a artista plástica estadunidense Faythe Levine resolveu que poderia fazer muito mais, além de somente tocar a sua loja especializada em produtos feitos à mão. Em 2006, botou o pé na estrada e percorreu os EUA, numa maratona de 15 cidades visitadas e entrevistas com mais de 50 artistas, artesãos e designers independentes. Ela documentou, através de entrevistas, fotos e vídeos, o que pensam e como trabalham essas pessoas. Todo esse material foi transformado em livro e em documentário chamados Handmade Nation(o livro pode ser adquirido através da Livraria Cultura – e isso não é um jabá ;-)).

Em entrevista à revista Vida Simples, edição de fevereiro de 2010,(pena que a matéria não esteja disponível no site da revista), Faythe diz: “acredito que fazer algo com as próprias mãos é uma escolha política, assim como comprar um trabalho de um designer independente em vez do que de um grande fabricante”. Aqui você pode ver o trailler do documentário. Repare no jeito outsider de alguns entrevistados de encarar e divulgar seus crafts. Vai me dizer que isto também não é ser um pouco punk?


“Grafitando” com tricô

Assim como os coletivos de artistas que espalham sua criatividade em intervenções de grafite pelas ruas, há alguns grupos que, em vez de usar spray, usam agulhas e linhas de lã para expressar suas ideias. Eles “embrulham” propriedades públicas (postes, monumentos, árvores, etc) com pedaços coloridos de tramas tricotadas ou crochetadas. É uma forma de chamar a atenção das pessoas para a cidade onde elas vivem e pouco prestam atenção; trazendo cor e aconchego ao cinza corriqueiro das metrópoles.


Acredita-se que o movimento de grafite com tricô começou em 2005, em Houston (Texas, EUA), quando Magda Sayeg cobriu a maçaneta de sua loja com tricô. Ela criou o grupo KnittaPlease (algo como “Tricô, por favor”) que sai sai às ruas cobrindo tudo com tricô. Uma das façanhas do grupo de Magda foi vestir um ônibus inteiro na Cidade do México, em 2008.

Magda criou até o Yarn Bombing Day (“Dia do Bombardeio de Novelos”, em tradução livre), no dia 11 de junho, quando todos – no mundo inteiro – podem cobrir os espaços públicos com essas intervenções de lã e linhas. Em São Paulo, o último dia 11 de junho foi chamado de “Dia de Tricotar em Público”, documentado pelo blog Superziper.

Outros coletivos de “yarn bombing” ou “guerrilha de tricô” têm se formado pelo mundo afora. Há, por exemplo, o Knit the City, baseado em Londres, cuja frase de efeito é “nosso crime é fazer o sol brilhar por meio do tricô”.



Rendas Radicais e Tricôs Subversivos

Esse foi o nome de uma exposição realizada no Museu de Artes e Design de Nova York, realizada em 2007, cujo eixo comum das obras foi o uso das técnicas de tricô e crochê, mas com materiais inusitados (borracha, metais, vidro, etc)e mensagens altamente críticas. David McFadden, curador da exposição, queria demonstrar uma subversão à imagem antiquada que o tricô e o crochê costumam passar. Algumas fotos das obras expostas podem ser vistas no Flickr.

Um dos destaques dessa exposição foi a obra “Nike Blanket Petition Project” (“Projeto Manta Petição Nike”) da artista Cat Mazza. Trata-se de uma manta de mais de 4 metros com um logo em bitmap da Nike. Cada pixel foi feito em crochê por crocheteiras de várias partes do mundo (inclusive do Brasil), como um abaixo-assinado por políticas de trabalho justas para os trabalhadores da Nike (acusada por explorar mão-de-obra barata de países subdesenvolvidos). A intenção era enviar a manta/petição ao presidente da Nike. A nova-iorquina Cat Mazza usa como ferramentas de expressão o craft e as mídias digitais e suas obras são verdadeiros manifestos sociais.

No site da Cat há informações completas sobre suas suas obras. O site tem como objetivo reunir os ativistas craft (craftivistas). Ah, e ali você encontra uma imagem do Nike Petition interativo. Explicando melhor: se você clicar no nome de um estado dos EUA ou de país participante (há vários), é possível visualizar quais quadradinhos (pixels crochetados) vieram dali e o nome de quem os fez.

Essa pegada mais politizada e anticapitalista, de fato, é muito mais forte e organizada nos EUA. No Brasil, não conheço nada que tenha igual intensidade desses movimentos, principalmente no que se refere à ideologia. Para fechar e equilibrar um pouco a visão do sentido do craft/artesanato atualmente, recomendo o objetivo e sensato artigo de Emy Kuramoto, blogueira e crafter do Tofu Studio: “Divagações sobre o que é ser crafter e por que consumir crafts”.

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