Last life in the universe

Kenji é um jovem bibliotecário japonês que mora em Bangkok, na Tailândia. Extremamente tímido, é obcecado por organização e pela morte (especialmente a dele mesmo e não necessariamente nessa ordem). De repente, uma tragédia coloca à sua frente Noi, uma garota que é o seu oposto: desencanada, expansiva e que vive em uma casa que parece ter brigado definitivamente com a vassoura e com o detergente há décadas. Depois de um início cheio de estranhezas, os dois vão se entendendo. Ok, pode parecer mais uma dessas histórias em que os opostos se atraem, onde a maluquinha conquista e é conquistada pelo cara tímido e estranho, mas não é bem assim…

Last Life in the Universe, de 2003, foi dirigido pelo tailandês Pen-Ek Ratanaruang e é um dos filmes asiáticos mais cultuados atualmente. Com visual e sons de uma beleza quase inebriante, o filme começa como um drama e parece evoluir para um romance, mas é acometido por toques de humor, surrealismo, ação e violência. Se achávamos que Kenji era apenas um asséptico compulsivo que encontra o amor, logo vemos que ele esconde muitos mistérios que teimam em persegui-lo. Parece uma salada mista, mas o diretor soube misturar os gêneros e as referências nesse filme, em que impera um véu de melancolia ao contar a história de duas vidas desestruturadas.

Eu vi Last Life, há dois anos atrás, em uma mostra chamada Oriente Desconhecido e que foi realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Reunia filmes do período de 1997 a 2006, até então inéditos aqui, de Taiwan, China, Coreia do Sul, Tailândia e Hong Kong. Achei belas as palavras do curador da mostra, o cineasta Gustavo Galvão, logo no prefácio do catálogo. Entre outras coisas, ele dizia que a reunião dos filmes se dedicava à “revalorização da transcendência – o antídoto para os dias nervosos e para a mesmice”. Transcender é reconhecer o homem e suas contradições, assim com outras formas de relacionar-se com o mundo.  A felicidade não é só aquela que é mostrada pela publicidade e pelos livros de auto-ajuda. Assim,  como cinema não é só consumo, pode ser transcedência também.

Pincei uma cena que, na minha opinião, é a mais bonita e viajante do filme (e logo no começo dá p/ adivinhar o por quê); e onde se vê o quanto Kenji transformou a vida de Noi (ou pelo menos deu um jeito na sua casa…).

E falando particularmente aos bibliotecários de plantão: não seria super prático se os livros fossem arrumados assim? E antes que se diga que nosso (anti)herói é o estereótipo bibliotecário em pessoa, lembrem-se que ele surpreende bastante ao longo do filme…

Mais sobre Last Life in the Universe no IMDB – Internet Movie Database

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